quarta-feira, 19 de setembro de 2007

PERDAS E ENCONTROS

Aconteceu naquele dia. Justamente no dia em que eu acordara feliz, pronta para enfrentar o mundo, se fosse preciso.
O dia que amanhecera lindo, reluzente e brilhante, aos poucos foi se tornando nublado e cinzento, assim como o meu interior.
Recebi a notícia com um sorriso nos lábios que foi morrendo aos poucos até que todo meu rosto toenou-se um esgar de dor.
Meu chão, meu porto seguro se fora. Nunca mais ouviria seu gargalhar feliz, sua cabeleira branca e farta ainda... nunca mais... Meu avô, a única pessoa que me amava incondicionalmente, morreu. A notícia que chegou bem no momento em que eu me preparava para visitá-lo e contar-lhe que iria me casar com Charles no fim do outono e aproveitar minha lua-de-mel na encantadora Londres durante toda a primavera.
- E agora? - pensei. - O que será de mim?
De olhos fitos no caixão, permaneci inconsolável durante todo o tempo em que estava no velório. Foi quando virei o rosto olhando para a porta de entrada que a vi entrar. Minha tia Madeline, que vivia em Glocestershire viera e antes mesmo de olhar o pai em seu leito derradeiro, veio até mim e me abraçou em condolências.
Nunca fomos muito afins, embora tivéssemos personalidade e opiniões parecidas vivíamos nos arreliando e não nos falávamos desde meus dezesseis anos, quando ela casara com o homem que eu amava. Ainda assim, uma admirava as atitudes da outra dissimuladamente.
Ela me consolava e por instantes pareceu-me sentir através de tia Madeline, o perfume de pinho tão característico de vovô.
Por isso, tão somente, agarrei-me a ela como um náufrago à deriva se agarra a algo que o salvará. Senti nesse momento muito carinho por aquela mulher que acabara de perder o pai, porque vi refletida nela a mesma dor que estava sentindo.
Nesse instante tornamo-nos uma só pessoa. Sem palavras, apenas com o olhar ambas entendíamos o que a outra sentia.
Dentre todas as pessoas reunidas naquela sala, velando o corpo do Duque Patrick de Montreaux, algumas muito próximas a mim, a única que conseguiu me consolar foi a mulher de quem eu tinha tanta mágoa.
Ficamos assim paradas consolando uma à outra apenas com o olhar e as mãos entrelaçadas.

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