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LARANJA MECÂNICA: DO ESPETÁCULO DE HORROR AO EXCELENTE

Horrorshow: espetáculo de horror em inglês. Horosh: excelente em russo.
Parônimos com palavras de idiomas diferentes, com significados diferentes e que dão toda a tônica do filme Laranja Mecânica de Stanley Kubrick.
O filme rodado em 1971 foi teve sua exibição proibida na Inglaterra pelo próprio Kubrick que recolheu todas as cópias e também foi proibido em diversos países até a década de 90 devido à brutalidade que veiculava. É uma produção considerada mainstream apesar de ter custado apenas 2 milhões de dólares.
Através dos elementos estéticos, a emoção da cena que está na tela é transmitida por meio do enquadramento da câmera passando através dos cenários – característicos de Kubrick. O ator principal, Malcolm McDowell, mesmo ator de Calígula, aqui com sua melhor interpretação, personifica toda a violência intrínseca ao ser humano através de seu olhar azul e amedrontador. É o relato das “aventuras de um jovem cujas principais inclinações são a violência, a violação e Beethoven” conforme a campanha publicitária do próprio filme.
Violência urbana e violência física banalizadas como uma representação teatral com movimentos estudados e sincronizados com a música que vai num crescendo até o momento em que Alex e seus drugues percorrem a estrada. Um mundo onde o caos e as sombras parecem imperar num espaço temporal inconstante apesar de o filme ser linear. Por vezes a passagem do tempo é feita em dias, outras percebe-se que alguns anos se passaram, como a cena em que ele foi preso e logo segue para ele dentro da prisão totalmente afeito à rotina, mas o espectador não sente quebrar suas expectativas.
O cenário e os objetos de cena também merecem particular atenção por estarem sempre presentes corpos nus e imagens fálicas demonstrando que o sexo, a força e o poder têm muita importância para o personagem central. Até em seu quarto ele possui estatuetas de um Cristo nu com os braços erguidos em punho abaixo de um quadro com uma mulher nua de pernas abertas e Basil, sua cobra de estimação, aparece como que adentrado essa mesma imagem. Detalhe digno de nota é que Kubrick só decidiu colocar o réptil como personagem após saber o medo que McDowell sentia pela espécie.
A narrativa do anti-herói, contada por ele mesmo, desde o início mostra o seu egocentrismo ao contar que ama a violência, o sexo e a música clássica representada por Beethoven a quem ele chama de Ludwig van e os efeitos que a 9ª sinfonia causa em sua mente. Alex consegue se transformar ao longo da narrativa de algoz para vítima.. Consegue isso mostrando os sofrimentos a que se submeteu voluntariamente para sair dela. Algoz dos mais fracos e vítima do Estado para manutenção do status quo.

O filme pode ser dividido em três partes: a primeira até Alex ser traído pelos seus companheiros e capturado pela polícia, a segunda quando Alex se submete ao Tratamento Ludovico para se livrar da prisão e extermínio de toda a violência dentro de si próprio e torna-se vítima de suas vítimas num paradoxo que vai de encontro à sua própria personalidade e a última quando tenta se suicidar, o que cria um aparente (e falso) final. A partir daí, tudo o que nos foi mostrado antes acaba por ser profundamente alterado: a personalidade violenta de Alex volta a manifestar-se.
A trilha sonora do filme é o elemento que rege o roteiro que foi baseado no livro homônimo de Anthony Burgess, aliás, o vocabulário utilizado no filme, um dialeto misturado de russo e gírias, foi todo tirado do livro, embora no filme não seja usada nem metade das palavras. O figurino e o design dos móveis e a decoração onde são rodadas as cenas é que dão o ar futurístico, mas mesmo dentro desses ambientes encontram-se conceitos estéticos existentes à época em que foi rodado, como o psicodelismo da pintura das paredes e as cores vibrantes.
Em contraste com todo esse ambiente futurístico-psicodélico seu figurino e o de seus amigos são brancos retratando a ambigüidade de seu ser. Alex se vê como puro como um mártir.
É perceptível mais uma vez a mudança de Alex, o ex-líder de gang tornou-se oportunista, aprendeu a direcionar sua sexualidade e agressividade. Seu sorriso hipócrita nos diz que ele continua o mesmo, capaz de cometer as mesmas atrocidades, apenas que agora o fará de modo a ser aceito na sociedade.
Ultraviolência é a palavra que marca todo o filme. Violência física, violência moral, violência institucional, auto-violência. Uma dubiedade presente e marcante até na colocação da palavra horrorshow que, para Alex, tanto pode significar um espetáculo de horror quanto excelente.

Comentários

PCAngelo disse…
Horrorshow este post! Adorei Elaine, em meu blog eu fiz um relacionado ao livro Laranja Mecânica e agora vou "linkar" o seu post que trata do filme, tudo bem ?
Parabéns!
Beijos
Paulo Cesar
http://pcangelo.wordpress.com
Eu ainda não tive a oportunidade de assistir a esse filme. Mas já ouvi ótimas críticas sobre esse filme.
Não sabia que ele foi proibido durante um tempo. O filme deve ser bom mesmo!!!

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